Um dos maiores problemas socioeconômicos, símbolo da falta de planejamento
urbano no Brasil, são as Favelas. Segundo a definição do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), favela é um conjunto de domicílios configurado de maneira desordenada
e densa, e que não possui acesso a serviços públicos essenciais. Todavia é nesse cenário de
calamidade humana que paradoxalmente floresce diversas manifestações culturais
valiosíssimas para a cultura brasileira.
É a partir da vivencia e criatividade do povo negro e periferico que se criou as
principaís expressões culturais que simbolisam a “brasilidade”. Como exemplo há o Samba,
criado no seio dos morros cariocas e perseguido desde sua origem. Além do hip hop,rap e
funk, principais produtos da cultura brasileira popular e contemporânea. Logo, mesmo com
uma constante marginalização da periferia e da cultura lá produzida, são esses signos que
constituem a identidade nacional do país. Não existe Brasil sem a criatividade das Favelas.
Nesse sentido de mudança de rumos e reparação histórica, surge o “Museu das
Favelas”. Após tanta perseguição e desprezo para uma população que constantemente
colaboracom a marca do Brasil no mundo, era chegado o momento para a honraria e
reconhecimento formal da região. Pondo em prática o slogan adotado pelo movimento de
criação do museu, “O Samba merece um Palacio”, e expandido isso para todos os expoentes
dessa cultura de resistência e sobrevivência que enfrentou a desigualdade.


A cultura popular, assim como a cultura das Favelas, seria um exemplo da criação da
população oprimida, periférica e consumida pela elite de poder, cenário que no Brasil se
mostrou sistematicamente institucionalizado como na “Lei de Vadiagem”(DECRETO-LEI Nº
3.688, DE 03 DE OUTUBRO DE 1941) que puniu o Samba, ainda em sua origem nos anos
1940s. Contudo, esse mesmo Samba, é considerado junto ao Futebol o principal símbolo da
identidade nacional, sendo sinônimo de “brasilidade", Demonstrando assim, a relação
ambígua que o corpo social brasileiro tem com sua própria origem cultural e organização
preconceituosa.
O Museu das Favelas também representa uma segunda relação com a
cultura nacional, demonstrando a relação complexa da produção cultural marginalizada no
país e a identidade formal da intelectualidade brasileira. Tal relação é semelhante a da ideia
apresentada por M.Bakhtin.
Mikhail Mikhailovich Bakhtin, filósofo russo do século XX, foi responsável por
propor a existência de uma correlação entre as culturas erudita e popular. Em sua obra “Cultura Popular na
Idade Média e no Renascimento”, Argumenta que a separação das culturas era feita a fim de
evitar uma homogeneidade cultural, porém, a partir de trocas culturais entre as camadas
sociais, a cultura se mistura e interage entre suas diversas formas. O cômico, portanto, é entendido como um aspecto fundamental na cultura popular.
Essa característica burlesca é exibida no Museu das Favelas na exposição “Funkeiros Cult”,
onde a proposta é relacionar obras consideradas parte da cultura erudita, como literaturas
filosóficas e rebuscadas, com a fotografia de jovens periféricos, mais especificamente
funkeiros, realizando essas leituras e expondo suas opiniões e pensamentos no formato de
memes, que são um tipo de expressão cômica utilizada na internet.
Assim, a exposição é capaz de mostrar o impacto da educação nesses jovens de uma
maneira bem humorada e relacionada com o que atualmente se entende como cultura popular.
Também é importante ressaltar que as obras procuram exibir a importância do funk, um estilo
musical relacionado a periferia, que é influente positivamente na vida desses jovens, mas que
constantemente sofre com preconceitos.
Referências:
HALL, S. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Trad. Adelaine La Guardiã
Resende et al. Belo Horizonte: Ed. UFMG; Brasília: Representação da Unesco no Brasil,
2003
DECRETO-LEI Nº 3.688, DE 03 DE OUTUBRO DE 1941. LEGISLAÇÃO CITADA
ANEXADA PELA COORDENAÇÃO DE ESTUDOS LEGISLATIVOS – CEDI
DOMINGUES, Petrônio. Cultura popular: as construções de um conceito na produção
historiográfica. História (São Paulo), 2011.
https://www.museudasfavelas.org.br/o-museu/
Comentários
Postar um comentário