Como foi o surgimento das favelas e sua importância sociocultural

     As favelas são, de fato, uma das realidades mais significativas da história social do Brasil nos centros urbanos. Sua história remonta ao início do século XX, numa conjuntura de um rápido processo de urbanização e concentração de mão de obra barata nas grandes cidades. A palavra "favela" vem da Guerra de Canudos (1896-1897) e era o nome da barraca rudimentar do exército, feita de palhas de "favela", uma planta espinhosa.

    “Falar de favela é falar da história do Brasil desde a virada do século passado” (ALVITO;ALBA, 2004, p. 7). Em 100 anos da história do desenvolvimento das favelas, segundo os interesses e conflitos de oligarquias regionais, certos empreendimentos culturais e políticos foram consolidados às custas de lutas e organizações feitas pelas comunidades. Sua origem deriva de dentro do município do Rio de Janeiro, cujo objetivo era criar a própria semelhança das cidades europeias, o que levou, junto com a derrubada dos cortiços1 , ao crescimento da população pobre nos morros e na periferia da capital carioca. As contradições do Brasil não fizeram deste território monolítico, disso em grande parte da pluralidade que sustenta as culturas tão marcadamente enraizadas no Brasil, flertando de forma admirável o erudito e o popular por meio de seus gêneros musicais e as suas festas populares que unia as diversas camadas sociais presentes no período, mesmo havendo desavenças.

    Entretanto, as favelas começaram entrar em conflitos no meio social, isso em grande parte da sua dualidade que foi se consolidando a partir do século XX. De acordo com os documentos no Arquivo Nacional2 , feito em torno de 1948, os residentes veteranos da Guerra dos Canudos, permitidos pelo Ministério da Guerra, “já era percebido pelas autoridades policiais como um ‘foco de desertores, ladrões e praças do exército” (ALVITO; ALBA. 2004. p. 9). As comoções da “classe alta” era de limpeza dos demais conjuntos habitacionais, tentando voltar ao status quo de se assemelhar-se a uma cidade europeia. Reforçando os estereótipos, os morros eram vistos pela polícia como um setor de criminosos, tráfico e locais perigosos. Sobre essa ótica, foi se construindo a percepção de um “problema das favelas”, no qual levou por iniciativa da prefeitura do Distrito Federal um censo das favelas.

    Na década de 70, o dualismo se intensificou sobre as percepções das Favelas, tendo como os seus principais fatores em: (1) consistir-se na coerção otimista em que há entre os membros das comunidades, dentro das pequenas extensões territorialistas, “Um complexo coesivo, extremamente forte em todos os níveis: família, associação voluntária e vizinhança” (BOSCHI, 1970, apud ALVITO; ALBA, 2004, p. 15), ao contrário do que o censo que as favelas foram feitas para abrigar os criminosos desleixados; e (2) com a chegada da década de 70 foi instaurada as condições do tráfico de cocaína, no qual grande parcela dos traficantes e das “classes perigosas”4 alojaram os centros das favelas como o seu hábitat natural.
    As favelas, consideradas locais de anarquia e crime, são exatamente o oposto - locais de criatividade e diversidade cultural. As favelas são, assim, não apenas locais de luta e resistência pelo direito à moradia, mas também a localização da expressão cultural mais real e poderosa, que encontra ressonância na sociedade. Sobre a importância das favelas como uma noção de nação.

    As favelas se abriram não apenas para o país, mas para o mundo, com a música, dança, artes e letras que vêm delas, e a maioria, senão todas as pessoas em qualquer parte do globo, é muito consciente de quão poderosa é a riqueza cultural que vem dessa terra. Samba, funk, hip-hop e grafite são apenas algumas das artes que vieram ou saíram desses lugares e que agora fazem parte do patrimônio cultural do Brasil. Essas comunidades são, portanto, muito mais do que a conotação negativa que muitas vezes lhes é atribuída. Elas são quadrantes de inventividade e singularidade, o núcleo da cultura. Quando a conquista cultural das favelas é aceita e respeitada como tal, ela destaca a heterogeneidade e a força de resiliência do povo brasileiro, que traduz a tragédia em cultura e arte. Portanto, as favelas são centros de produção cultural extremamente dinâmicos que representam a complexidade e a riqueza da sociedade brasileira.




Referências:

VAŠINOVÁ, Klára. Favelas do Brasil: A origem, o desenvolvimento e a característica das favelas brasileiras. 2019. 55 f. Monografia (Graduação em Língua e Literatura Portuguesa) – Masarykova Univerzita, Brno, 2019.
 ALVITO, Marcos; ALBA, Zuenir. Um século de favela. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2004. 
MEIRELLES, Renato; ATHAYDE, Celso. Um país chamado favela: A maior pesquisa já feita sobre a favela brasileira. São Paulo: Editora 34, 2014. 
BIANCO - Assessoria de Imprensa Museus das Favelas. SOBRE MUSEU DAS FAVELAS. [s.d.]. Disponível em: MINI BIO _ SOBRE MUSEU DAS FAVELAS.docx (1).pdf . Acesso em: 05 ago. 2024



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